Costumo levar sempre um livro comigo. Mais comum é trazê-lo na mão, à vista de todos, insinuando-se do modo mais desavergonhado possível, tentação para cabeças adormecidas. Naquele dia meu livro não estava assim. Trazia-o na minha bolsa, num espaço - uma espécie de bolsinho externo - que há muito havia se revelado um local - um ninho - quentinho para apaziguar sua momentânea solidão.
Um livro deve estar no lugar para onde foi feito. Nas mãos do leitor. Não trazia o livro pendurado no braço porque folheava uma revista que rapidamente perdeu o encanto. Guardando-a, foi ai que percebi o perigo: meu livro estava prestes a cair da bolsa, ou melhor - ou pior - sair do ninho para um voo involuntário. O que se revelava ali me levou a entender algumas coisas que deveriam ser óbvias, mas que nosso mundo tem transformado em revelações.
Meu livro custa cerca de trinta reais, o que faz com que sua substituição não seja uma coisa difícil. Ele também continua à venda nas livrarias, o que facilita mais ainda as coisas. Por que então senti tanto medo quando percebi que meu livro podia ter caído da bolsa ?
Porque percebi que meu livro é único, não existe outro igual no mundo. Se o perdesse, perderia as .marcas do tempo, do uso, das diversas leituras e releituras. Perderia as notas, muitas delas incompreensíveis até para mim, mas que testemunham momentos que são somente meus. Quem no mundo tem um exemplar igual ao meu de A Montanha Mágica com uma página rasgada ?
Comprar outro livro não traria o conforto necessário, nem acabaria com meu sentimento de perda.
Ainda tenho esse livro comigo até hoje.

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